quinta-feira, 28 de abril de 2011

SATANIK / U-235 O HOMEM CIBERNÉTICO

É evento banal, infelizmente, na trajetória das Histórias-em-Quadrinhos no Brasil, nascimento & morte prematura de diversos personagens, por vezes publicados numa única historieta, ou num único gibi. Este Almanaque De Aventuras, publicado pela paulistana Editora Taíka, mostra dois exemplos muito claros deste tipo de fenômeno comum na História dos personagens brasileiros dos Quadrinhos. No Fã Zine n. 18, memorável publicação de José Eduardo Cimó lançada em 1994, uma formidável antologia de famosos e/ou esquecidos personagens brasileiros dos gibis, explica-se claramente a origem deste Almanaque de Aventuras: “Uma edição única de 100 páginas em preto e branco, em que apareceu Satanik. Isto no ano de 1970, quando a Editora Taíka se encontrava em concordata e precisava faturar qualquer coisa, então publicaram Satanik que estava engavetado há anos. Criação de Emilmar D´Alba Di Tullio, com roteiro de Rubens Francisco Luchetti, desenhos de Di Tullio e arte-final de Nico Rosso. Conta Luchetti: num dia de outubro de 1967, Emilmar, um jovem esperançoso, excelente desenhista, com a cabeça cheia de idéias, bateu à porta da casa de Nico Rosso, sobraçando alguns esboços de um personagem que ele criara, chamado ‘Shatan’. O Nico ficou de tal forma impressionado com os desenhos do jovem que o fez procurar por mim, que, baseado naquelas idéias escrevi o primeiro roteiro, rascunhado pelo próprio Tullio, com arte-final do Rosso, e o personagem passou a se chamar Satanik.”








São duas as HQs com Satanik nesta edição única do Almanaque De Aventuras: “O Que Será Satanik?”, contando sua origem, e “A Ilha Pirata”. Quem era Satanik? A própria legenda de abertura tenta explicar: “Um justiceiro? Um agente secreto? Um aventureiro? Um herói? Talvez tudo isto numa só pessoa.” De fato, Satanik é um agente secreto norte-americano, mas de nome brasileiro, Felipe, que acaba caindo de avião na selva amazônica, sobrevive milagrosamente e é salvo por um cientista, que lhe restaura a face dando-lhe novas feições e também um uniforme super-resistente, e que lembra muito aqueles utilizados pelos heróis em Quadrinhos da Golden Age, notadamente o Homem-Rádio. Produto de seu tempo, Satanik vive intensamente o clima da Guerra Fria, enfrentando espiões e espiãs de potências totalitárias. Os roteiros primam pela aventura sem deixar de lado o bom-humor, e a dupla de desenhistas possui dinamismo maravilhoso, especialmente nas seqüências de pancadaria, com irresistível apelo juvenil.
O Almanaque de Aventuras encerra com interessante HQ de outro super-herói brasileiro, U-235 O Homem-Cibernético, criação de Ignácio Justo. Antes de falar mais especificamente deste personagem, um parênteses: Satanik e Homem-Cibernético têm mais em comum do que a existência efêmera e participação na mesma revista: é que Rosso, Luchetti e Justo muito pouco trabalharam com o estilo dos super-heróis. Todos artistas muito ecléticos e versáteis, mas tanto Luchetti quanto Rosso são mais conhecidos pelo que fizeram nos Quadrinhos de terror; e Justo (tenente-aviador na vida real), destacou-se sobremaneira nas histórias de guerra. E a guerra é pano-de-fundo para U-235, já que é criação robótica de um ex-aviador nazista que ficou paralítico nos conflitos aéreos na Europa durante a 2ª. Guerra Mundial, e mais do que ter perdido o movimento das pernas, o cientista é tomado pelo remorso e desde então só pensa em fazer o bem para a humanidade. Refugia-se no Brasil onde adota uma criança e todas as experiências que faz visam melhorar a vida dos semelhantes. O filho cresce e torna-se ele também um oficial da Força Aérea, e é na imagem do próprio filho adotivo que o cientista paraplégico cria um super-robô poderoso, forte e cheio de engenhocas, capaz de soltar raios pelos dedos e portando um invocado cinto de utilidades (nada muito original, eu sei, já não era quando o Batman foi lançado). Segundo nos conta Antonio Luiz Ribeiro em artigo publicado no fanzine Heróis Brazucas n.21, U-235 foi considerado como apologético ao regime militar e boicotado por editores comunistas, e por isso ficou nesta única HQ. Uma pena, já que um grande artista como Ignácio Justo não teve chance de explorar os as potencialidades deste seu personagem, nem os perfis psicológicos dos coadjuvantes, nem o propício cenário para boas aventuras.

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